O papel surgiu no século II na China e, até então, era uma das principais ferramentas de triagem e análise de currículos pelas equipes de RH. Logo, mesmo após 19 séculos do seu surgimento, seria ledo engano que a onda de transformação digital iria substituí-lo por uma ferramenta de recrutamento e seleção, por exemplo.

A tendência do momento é ser uma empresa mais digital, mas a questão é: você acha mesmo que investir dinheiro e tempo na implantação de uma ferramenta de recrutamento e seleção é passar por transformação digital? Se você respondeu sim, sem ao menos questionar alguns pontos antes de dar a resposta, recomendo que você volte 2 casas deste jogo corporativo.

Ser digital não é apenas ter uma ferramenta de recrutamento e seleção

Como posso dizer que sou digital em minha organização se eu ainda tenho colaboradores que sofrem ao ter que fazer controles em ERPs ou CRMs? Ou quando ainda estão se adaptando a fazer gestão de dados no Excel?

A mudança não acontece do dia para a noite e pode ser que, em sua organização, leve anos para acontecer. E isso não se deve ao fato de que as ferramentas que a sua empresa contratou para o processo de recrutamento e seleção ou mesmo de treinamento & desenvolvimento não sejam eficientes.

É necessário refletir sobre a mudança de comportamento das pessoas nesta nova era que chegou. Investir mil reais ou um milhão tem relevância apenas financeira, mas só será fator determinante de sucesso para implantação de alguma ferramenta para o RH se, mais do que comprar um sistema, você “comprar” as pessoas.

Apesar do termo parecer pejorativo, para ter sucesso no desafio de se ter um RH digital e mais estratégico, é preciso que as pessoas estejam “compradas” com o uso de uma plataforma.

Isso é reverberado em engajamento e interesse quando os formadores de opinião acreditam nessa transformação, pois é fato que nenhuma ferramenta funciona sozinha. As pessoas são papéis importantes para dar o “play” ou mesmo parametrizá-la para que o funcionamento aconteça.

Sabemos que, dentre todas as áreas de uma companhia, os profissionais de RH estão num árduo caminho na busca de novas competências. O que é novo assusta, mesmo que saibamos que seja inevitável mudar.

Você está preparado para implantar uma ferramenta de recrutamento e seleção?

Imagine que, há 36 anos, não existia caixas eletrônicos para saque de dinheiro no Brasil e, hoje, boa parte das pessoas só utiliza esse meio para ter dinheiro em mãos. Trouxe esse simples exemplo para dizer que estamos sendo conduzidos pra uma era em que, talvez, os CVs de papel não existam mais. Você está preparado (seja no papel de candidato, empresa ou recrutador)?

Entendo que, assim como bem pontuado no artigo da Harvard Business Review Brasil, escrito por Nathan Furr e Andrew Shipilov, a transformação digital não precisa ser disruptiva, mas sim gradativa, adaptativa e inclusiva. Eu, por exemplo, tenho um colega de trabalho que brinca que a tecnologia não pede licença, ela pede desculpas, justamente pelo fato de incomodar e ser irreversível.

Os processos precisam se tornar mais digitais, a inteligência já é artificial, a IoT (Internet das coisas) bate à porta, mas, se as pessoas não estiverem preparadas, nenhum investimento terá o retorno esperado e no tempo necessário.

O ser humano precisa ser convencido, e essa mudança não deve ser necessariamente uma decisão “top down” (vinda da diretoria, por exemplo) que transforma as pessoas e as convence de serem digitais de uma hora para outra.

Mudar o mindset do RH é fundamental

Se hoje eu pudesse dar apenas um conselho para as empresas que estão em processo de transformação digital, antes de investir em recursos tecnológicos, é preciso se planejar e preparar os seus recursos humanos para usar a tecnologia a seu favor.

O RH, que surgiu na era da revolução industrial e era chamado de “recursos industriais”, passou então para “recursos humanos” e, a longo prazo, terá seu papel alterado provavelmente para “recursos dos negócios”. Obrigatoriamente deverá ser mais estratégico, com olhar em pessoas, cultura e propósito e com as mãos na tecnologia, fazendo dela sua aliada para otimização de tempo, custos e perenidade da área de RH.

Não é uma tomada de decisão fácil para as empresas serem digitais, tampouco para os profissionais de RH, mas a mudança está no presente, e não no futuro como muitos imaginam.

Confrontar nem sempre é o mais efetivo. Aliar e apresentar os benefícios desta transformação é a maneira mais acertada e é natural que percamos recrutas pelo caminho.

Repense a cultura da empresa e garanta que ela esteja alinhada ao propósito do negócio. Se ser digital não está contemplado, fica um alerta de reflexão. É preciso uma mudança de mindset, e todos precisam acreditar para experienciar!

Este é o desafio das empresas, mas agora, se você, profissional de RH, ainda está pensando em Excel como algo digital, sugiro que suas pesquisas possam ir além. O futuro do trabalho vai deixar muitas profissões no passado e, para que você não perca seu posto, use toda sua resiliência para não só abrir sua mente e pensar fora da caixa, mas se prepare para construir a caixa com hologramas, chatbots, dentre outras ferramentas, porque acredite, você vai precisar se inovar!

Camila Costa | Coordenadora de Customer Experience da Connekt

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