Como a Filosofia pode contribuir para a Liderança do século XXI

Quando terminei minha tese de doutorado no primeiro semestre de 2016, com o tema Liderança e Luta por Reconhecimento, tive a percepção de que havia me colocado em uma armadilha: para a Filosofia (o tema Luta por Reconhecimento é diferente de como ele é entendido na Gestão de RH) eu estava indo para um pragmatismo excessivo, quase como que vendendo para a Administração um conceito muito caro para os movimentos culturais e sociais; por outro lado, para a Administração, eu estava era apenas “filosofando”. De fato, ainda hoje não são muitos os artigos acadêmicos que se utilizam da Filosofia para falar de Liderança, apesar de alguns estudiosos trabalhar temas originariamente desta disciplina para desenvolver suas teorias de Liderança. São os casos de teorias como a Liderança Ética, Autêntica, Servidora e Espiritual, todas desenvolvidas nos últimos 30 anos. Acredito, entretanto, que o pensamento que tem guiado a ciência e a ação humanas há mais de 2500 anos deve ter algum tipo de contribuição para o estudo e o exercício da Liderança, especialmente num mundo em que a disponibilidade de dados e a capacidade e velocidade dos computadores parece se impor como quase única fonte para o pensamento científico. Por conta disso, estou preparando uma série de textos sobre Liderança, com base na minha tese de 2016 e que pretendo divulgar em breve. Enquanto isso não acontece, quero abordar hoje de forma muito resumida, o que alguns filósofos especularam sobre Liderança, material que pode servir de introdução para quem quiser se dedicar a pesquisar um pouco mais o tema.

A preocupação com a Liderança está presente em todos os mitos e lendas das civilizações, mesmo antes do advento do pensamento filosófico. Textos como a Ilíada e a Odisseia de Homero já falavam de liderança, onde o líder era sempre apresentado como exemplo de moral e aquele que gerencia punição e recompensa. Posteriormente, nos primeiros textos de filósofos que chegaram até nossos tempos, Platão, por exemplo, compreendia que a liderança deveria ser concedida ao filósofo, já que suas decisões e ações seriam sempre baseadas no uso da razão. O líder filósofo seria mais justo, porque suas decisões seriam indiferentes ao prazer sensual, ao dinheiro e ao poder. Seu discípulo, Aristóteles, por sua vez, acreditava que a liderança exercida pelo filósofo poderia não se diferenciar da tirania, uma vez que qualquer tipo de governo exercido sobre homens livres corria esse risco. Assim, o líder deveria emergir dos negócios da administração pública, ou dos expertos, tomando Péricles como o grande exemplo entre os gregos. Para quem não conhece muito de Péricles, ele foi o líder estratego de Atenas no seu período de maior glória e os restos de algumas de suas maiores criações ainda podem ser vistas na Acrópole.  Ainda na antiguidade, mas já entre os romanos, quem escreve e dá conselhos para a liderança é Cícero, para quem o líder deveria ser alguém com os maiores valores éticos, com especial ênfase para a justiça.

Entre a antiguidade e o renascimento, que antecipa a era moderna, o pensamento filosófico ocidental conhecido era o denominado escolástico, profundamente influenciado pela Igreja Católica. Pouco do que chegou até nós fala de liderança.

Nos primórdios do renascimento, provavelmente o primeiro pensador a analisar as questões da liderança foi Maquiavel. Seus dois principais textos, os Discursos e o mais conhecido O Príncipe, são voltados para a boa gestão e administração dos estados nacionais e, portanto, para a Liderança. Em ambos os textos ele ressalta que não há nada mais perigoso e incerto para alguém do que tomar para si a tarefa de liderar a introdução de uma nova ordem das coisas. Especialmente em O Príncipe, Maquiavel ensina que para o líder pode ser mais importante ser temido do que ser amado. Suas concepções sobre o poder e como mantê-lo continuam a influenciar gestores e líderes políticos e organizacionais até hoje, mas o termo “maquiavelismo” é popularmente identificado na mente popular a engano, coerção e uso de qualquer meio para alcançar os fins. Esta, entretanto, parece não ser uma identificação justa com o pensador. Para ele, a missão fundamental do príncipe deveria ser a paz social e a prosperidade do estado e de seus cidadãos e a criação de instituições que transcendessem o seu reinado. Sua ideia era de que a vida social deveria se separar em duas moralidades, uma cristã e a outra para a política, que deveria estar livre da primeira. O interesse pelas ideias de Maquiavel cresceu muito a partir dos anos 1980, especialmente depois das crises éticas da liderança dos anos 1990 em diante. Observou-se que muitos dos manuais de liderança desta época davam pouca importância para a regulação e para as instituições que controlam a liderança nos tempos atuais e para os temas da corrupção. O líder dos tempos de Maquiavel era também o grande legislador.

Praticamente nenhum outro grande filósofo abordou a questão da Liderança de forma tão objetiva após Maquiavel. Entretanto, ensinamentos podem ser retirados dos textos de diversos pensadores.

Para Adam Smith, por exemplo, a função da liderança é garantir a liberdade dos indivíduos. A mão invisível da economia atuaria para equilibrar as trocas não somente econômicas como morais e sociais. Sujeitos livres e moralmente atentos tomariam decisões que não atentam contra os outros, porque poderiam resultar em prejuízos para si mesmos. Como um dos primeiros fundadores do pensamento econômico, Smith deu muito pouca importância para o papel da liderança, acreditando que as instituições (moralidade e liberdade) dariam os fundamentos para uma sociedade justa e equilibrada. Provavelmente por conta desta sua influência, a Liderança é um quase não assunto nas ciências econômicas.

Para Hobbes, um dos mais importantes contratualistas da modernidade, como os indivíduos tendem à guerra permanente de todos contra todos, eles estão dispostos a um contrato social pelo qual abrem mão de sua liberdade em favor da segurança. Esta seria assegurada por um príncipe que garantiria a paz com a mão forte da espada. Assim como Maquiavel, a principal preocupação do príncipe seria a paz social, ou em tempos contemporâneos, o bom ambiente interno.

Os grandes pensadores alemães, como Kant, Hegel e Marx também dedicam muito pouca atenção para a liderança e é necessário fazer grandes esforços analíticos para extrair insights para este estudo. Entretanto, são ensinamentos extremamente importantes para o século XXI. De Kant extrai-se a ideia de que líderes especificam futuros desejados, direcionam a mudança e atuam para eliminar a desordem e o gap entre intenções e realidade. Além disso, líderes influenciam outros a definir futuros desejados. Com seu imperativo categórico, esses insights tornaram-se as bases das teorias de liderança servidora e autêntica, elaboradas a partir dos anos 1990. As ideias de Marx, por sua vez, são a base de todo o chamado pensamento crítico da liderança, aquele que questiona o real papel da liderança, seu excessivo foco nos interesses individuais dos acionistas no curto prazo, em detrimento dos interesses dos colaboradores.

Hegel traz uma outra contribuição importante para o estudo da liderança: a ideia de que os sujeitos humanos lutam para se ver reconhecidos como sujeitos merecedores de atenção e equidade. Sua concepção completa do reconhecimento, entretanto, resulta numa solução absolutista para a regulação das demandas por reconhecimento da liberdade dos sujeitos. A luta por reconhecimento se daria em três níveis, o do amor, pelo qual se alcançaria a autoconfiança, a do direito, que propiciaria a igualdade; o terceiro nível, da liberdade, entretanto, necessitaria da interferência de um líder absolutista monárquico. As ideias de um reconhecimento alcançado através da intersubjetividade nas relações sociais é fundamento de algumas importantes teorias modernas de liderança, como a transformacional e a liderança ética. Diversos outros estudiosos, partindo de Hegel, aprofundaram as questões da intersubjetividade e forneceram contribuições importantes para o estudo da liderança. É o caso, por exemplo de Gadamer, que entende a autoridade (um dos mecanismos da liderança) como um ato da liberdade da razão, no sentido de que alguns aceitam a autoridade de outros a partir de um entendimento racional de que estes outros teriam contribuições que beneficiariam os primeiros. Hegel e, posteriormente, George Mead, pensador pragmatista americano e muitas vezes considerado um dos primeiros psicólogos sociais, anotavam que as grandes mudanças da humanidade sempre precisaram da ação de líderes visionários, como Jesus Cristo ou Budha. Para tempos contemporâneos, poderíamos acrescentar líderes como Mandela e Gandhi, cujas ações mudaram o comportamento de nações inteiras.

Axel Honneth, pensador de vertente hegeliana, construiu, nos anos 1990, uma teoria da luta por reconhecimento que pretende resolver o abandono à intersubjetividade observado em Hegel no terceiro nível do reconhecimento. Honneth introduz a ideia de solidariedade como possibilidade de solução do conflito moral neste nível. Mantendo a ideia de que o reconhecimento dos sujeitos se dá em três níveis, o do amor (autoconfiança), do direito (justiça e equidade), Honneth entende que o desejo de reconhecimento como liberdade pode ser alcançado com a ideia de solidariedade entre os sujeitos. Neste sentido, o conflito de reconhecimento se resolveria por uma disposição dos diversos sujeitos de reconhecer também que o outro é alguém com direito de ser livre para ser quem ele bem quiser.

Na minha concepção pessoal, acredito que a concepção de luta por reconhecimento de Axel Honneth pode contribuir muito para a construção de teorias e práticas de Liderança para o século XXI. Vivemos uma época em que as pessoas buscam se firmar como sujeitos através de sua autoconfiança (a ideia de que são parte de uma comunidade, de um grupo, de pertencimento), de seu direito à igualdade (equidade de oportunidades e de informações) e de liberdade (ser quem se é ou quem se deseja ser, sem discriminações de qualquer tipo). Evidentemente, a Liderança requer também que o líder seja capaz de articular equipes para a construção de propósitos coletivos, que são a razão de ser das organizações. Entretanto, o líder do século XXI, para contribuir para o atingimento dos objetivos de organizações e grupos, precisará ter clara a ideia de que somente a intersubjetividade fundadora do reconhecimento, como exposto.

Não é difícil, portanto, de perceber que grande parte do que se espera das lideranças tanto organizacionais quanto políticas no século XXI tem muito a ver com que nos trouxeram os filósofos ao longo da história. De Platão vem a ideia de racionalidade; de Aristóteles, a de que o conhecimento (o experto) é fundamental; de Maquiavel e Hobbes, mesmo que por caminhos tortos, a ideia de paz social ou ambiente seguro; de Kant, a construção de propósitos e de um futuro desejado; Marx reforça as ideias de justiça presentes desde Cícero; Hegel mostra que o sujeito busca sua autorrealização na intersubjetividade, no reconhecimento. No século XXI definitivamente não é mais o comando e controle que definirá a liderança, mas a sua capacidade de articular intersubjetivamente propósitos, com autoconfiança, equidade e liberdade.

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