A Inteligência Artificial – Porque ela é diferente de outras inovações!

Desde os primeiros anos do modelo de produção capitalista, o avanço da tecnologia sobre o trabalho tem sido objeto de estudos e especulações por pesquisadores e público em geral. Adam Smith acreditava que a rotina dos processos de produção tornaria a vida dos trabalhadores cansativa e desinteressante. Marx e Stuart Mill construíram utopias, opostas entre si, acerca do fim do trabalho duro decorrente do desenvolvimento tecnológico. Já nos anos 30 do século passado, John Maynard Keynes apontava para uma nova doença denominada “desemprego tecnológico”, que arruinaria a vida de grande parte das pessoas.

Como qualquer tecnologia que pode realizar tarefas humanas, a Inteligência Artificial pode tanto substituir o trabalho de pessoas, como criar novas oportunidades de profissões e trabalhos. Mas, no debate público em geral, parece haver um medo real em torno do uso da Inteligência Artificial no trabalho. As experiências da introdução de novas tecnologias no passado mostram que não houve grande geração de desemprego no mundo, apesar de estas tecnologias terem destruído muitos empregos. Novas necessidades foram criadas e, com elas, novas ocupações para as pessoas. Porque, então, para muita gente parece que desta vez as coisas podem ser diferentes? A Inteligência Artificial ameaça e coloca em risco o valor do humano no trabalho mais do que outras tecnologias? É sobre isso que procurarei discorrer nos próximos parágrafos.

A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)define a Inteligência Artificial (IA) como “um sistema baseado em máquina, que pode, para dados objetivos, permitir predições e recomendações, influenciando os ambientes virtuais e reais”. Nos últimos anos, a enorme disponibilidade de dados, a capacidade de máquinas de fazer operações com esses dados e de os armazenar, além da computação em nuvem, cresceram dramaticamente, impactando a IA e apontando-lhe inúmeras novas oportunidades. Apesar de em algumas áreas o uso da IA ainda ser incipiente, ela avança a velocidades assustadoras para atividades humanas que não são mais apenas básicas, mas muitas vezes requerem das pessoas competências bastante sofisticadas. 

Mas o que aparentemente faz ela parecer ser tão diferente desta vez?

Primeiro, a IA é uma proposta tecnológica de natureza geral. Ela tem o potencial de atingir o trabalho em inúmeros campos ou setores da economia e pode gerar inovação complementar. Isto a coloca num outro patamar da inovação tecnológica, no mesmo nível, por exemplo, da computação, da eletricidade ou, indo mais atrás, da energia a vapor. Ela pode mudar as formas de organizar as economias, as atividades e o trabalho, por decorrência.

Segundo, a IA pode desempenhar tarefas cognitivas não rotineiras. Os impactos iniciais da robotização, por exemplo, afetavam apenas processos manufatureiros de baixa complexidade. Nesse sentido, substituíam basicamente operações físicas. A capacidade de resolver problemas, raciocinar e perceber, faz com que a IA esteja já processando atividades muito mais complexas, de nível médio de tecnicidade e especializadas. O efeito é particularmente elevado sobre algumas profissões que exigem conhecimentos sofisticados, como radiologistas, técnicos de laboratórios, engenheiros, advogados e mesmo cientistas (já estão disponíveis ferramentas que permitem o resumo instantâneo de milhares de papers científicos, que antes requeriam a participação de grandes grupos de revisores). O que conta a favor aqui, por sua vez, é que estes indivíduos, diferentemente das inovações tecnológicas anteriores em atividades mais básicas, possuem capacidades cognitivas para se adaptar mais rapidamente e evitar seus impactos negativos.

Terceiro, a IA traz novas oportunidades e desafios para o trabalho. A capacidade de manipular e gerenciar enormes volumes de dados provavelmente melhorará muito a tomada de decisão, reduzindo erros. Ao mesmo tempo, permitirá melhorias no monitoramento da produtividade das pessoas e na sua comunicação, assim como possibilitará melhores avaliações de candidatos a empregos, reduzindo os atritos iniciais e necessidades de longos e custosos processos de integração. Ou seja, tem grande potencial para aumentar a produtividade geral do trabalho. Por outro lado, estas possibilidades embutem riscos para o ambiente de trabalho. Gestores podem se focar exclusivamente em dados nos processos de recrutamento e retenção de pessoas, introduzindo novos vieses, com menos transparência dos algoritmos, trazendo insegurança aos trabalhadores. O monitoramento excessivo pode gerar mais pressão e doenças daí decorrentes. Não é de graça que entre as competências mais buscadas atualmente, além da capacidade de manipular dados, estão as emocionais e sociais.

Não é possível ainda afirmar que desta vez o impacto sobre o trabalho será diferente, mas podemos aprender com o passado. As ondas tecnológicas anteriores não produziram grandes volumes de desemprego, mas trouxeram desafios para gestores e formuladores de políticas públicas. Como elas afetaram especialmente pessoas com competências mais básicas e capacidades menos sofisticadas, o que se observou foi um aprofundamento da desigualdade de renda (nos Estados Unidos, enquanto a produtividade do trabalho cresceu 254% entre 1970 e 2010, os salários subiram somente 113% no mesmo período). Esta nova onda parece atuar mais fortemente sobre pessoas com maiores possibilidades de adaptação, mas, seguramente, não estarão isentas de desafios e riscos de alijamento. Nas empresas, este grupo de profissionais pode ser mais facilmente retreinado para exercer outras atividades e sentir menos os impactos da adaptação. Na esfera pública, entretanto, a preocupação deve também se voltar para aqueles que já foram alijados de suas ocupações anteriores. Grandes programas de retreinamento precisam estar presentes nas suas estratégias para o futuro.

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